Artigos › 13/07/2018

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Sede santos

Caros amigos, a cada dia o chamado a uma vida santa se renova. O caminho de santidade pode e deve ser percorrido por todos, independentemente de condição e estado. Ser santo é, em primeiro lugar, imitar o exemplo de Cristo e cumprir seus ensinamentos buscando viver a vida verdadeira, a felicidade para qual fomos criados em comunhão com os irmãos (cf. Gaudete et exultate, 1).

Criados à imagem e semelhança de Deus, não podemos nos deter numa vida medíocre, superficial e indecisa. “A medida da santidade é dada pela estatura que Cristo alcança em nós, desde quando, com a força do Espírito Santo, modelamos toda a nossa vida sobre a sua” (Bento XVI, Audiência Geral, 13/04/2011).

Nos altares encontramos inúmeros exemplos que testemunham que é possível responder, neste mundo, ao chamado de Deus à uma vida santa. Estes homens e mulheres nos ensinam com suas escolhas e renúncias que o projeto de santidade é construído com as dificuldades próprias de cada tempo e lugar.

O individualismo crescente em nossa sociedade, apresenta-se como um grande inimigo da santidade no mundo atual. “Importa pôr de manifesto que a vida comunitária é uma característica natural que distingue o homem do resto das criaturas terrenas” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 149). Diz o Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática Lumen gentium que a santificação do homem não pode ser intimista e pessoal, mas é, por força da natureza humana, comunitária (cf. n, 9).

Neste sentido, vale a pena trazer à tona a reflexão do Papa Francisco: “ninguém se salva sozinho, como um indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana: Deus quis entrar numa dinâmica popular, na dinâmica do povo” (Gaudete et exultate, 6).

Infelizmente, a dimensão comunitária no mundo hodierno é sufocada pela busca incessante de satisfação dos apetites sensíveis. Ganha cada vez mais espaço em nossas relações, a celebre visão do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre – “o inferno são os outros” -, na qual o outro é sempre o responsável por tolher a nossa liberdade e autonomia, e por revelar nossos erros e defeitos.

Em contrapartida, a Igreja nascente dá o testemunho de superação das intempéries pelo exercício do amor mútuo, refletido na partilha dos bens e no cuidado para com os menos favorecidos e marginalizados. A santidade é a vivência plena da caridade.

Na esteira dos primeiros cristãos, somos chamados a firmar nosso projeto de santidade no compromisso de sermos bons administradores dos bens que Deus nos deu (cf. 1Pe 4,10), oferecendo o próprio testemunho nas ações ordinárias: o trabalhador, cumpra com honestidade e competência o seu ofício ao serviço dos irmãos; os pais, eduquem com paciência e responsabilidade os filhos e os conduzam no caminho da fé; e, os que são investidos de autoridade, lutem pelo bem comum renunciando aos interesses pessoais (cf. Gaudete et exultate, 14).

É primordial que cada um de nós, pela força do nosso Batismo e alimentados pela Eucaristia, sejamos sinais da presença de Deus nas periferias existenciais do nosso tempo. As tempestades que enfrentamos não podem nos desanimar, ao contrário, elas devem inflamar em nossos corações o desejo de uma vida santa, para que seja possível um modo mais humano de viver.

Por Dom Edney Gouvêa Mattoso – Bispo de Nova Friburgo (RJ)